Um breve retorno às origens

Estimados leitores amantes da Arte das Mãos Vazias! Fui honrado com a nobre e delicada missão de inaugurar este blog de Karatê. Após discussão acerca de qual assunto seria ideal para iniciá-lo, chegamos à conclusão de que explicar o que é o Karatê deva ser, de fato, a melhor maneira de começar um trabalho literário virtual de tamanha importância.

O tema, contudo e como já dito, é delicado, pois o Karatê é arte marcial, é esporte e é defesa pessoal. A síntese de sua explicação, com a exposição dessa tríade, parece simples, mas certamente cada um de seus aspectos é digno de uma obra à parte – e aí paira a dificuldade que se me impõe, qual seja a de tentar sintetizar tudo isso num único artigo, que obviamente passará longe de esgotar a matéria que doravante iremos abordar. Adianto que, dada a impossibilidade, hei de adotar nas vindouras linhas apenas um dos aspectos do Karatê, que para mim, particularmente, é o mais tocante.

Feitas as considerações iniciais, acho prudente iniciarmos nossa exposição com a etimologia da palavra Karatê: O kanji kara (空) significa vazio, e o kanji te (手) significa mão. Juntos, formam a palavra Karatê (空手), que, portanto, significam, em uma parca tradução, “Mãos Vazias”.

Contudo, qual é o significado desse termo? Em um giro mais superficial, Karatê pode ser entendido como a arte marcial que se utiliza das mãos nuas, sem armas, para o combate. Tal entendimento não está errado, mas também não é de todo certo. Com berço em Okinawa, o Karatê foi o resultado de uma imensa troca de informações entre os lutadores locais e os lutadores existentes entre as 54 famílias chinesas que se radicaram na ilha entre os anos de 1800 e 1870. Conforme a teoria que vem tomando força entre os historiadores da arte marcial do Karatê, muitos expertos, praticantes e interessados daquela época reuniam-se na Praça Matsuyama (Matsuyama Koen), localizada em Kumemura, distrito de Naha, e lá absorviam novas técnicas e ensinavam as técnicas que sabiam. Os chineses traziam consigo, em sua maioria, o Gongfu Shaolin do Sul, que contemplava a utilização de armas rústicas como forma de defesa pessoal. Por tal motivo é que até hoje, em todos os Dōjōs de Karatê tradicional de Okinawa, há a prática de técnicas com armas como o bo (bastão), o sai (tridente), a tonfa e o nuchaku, e.g. Deste modo, é um imperativo iniciarmos um giro mais profundo, a fim de descobrirmos o que significa de fato o termo Mãos Vazias.

Antes da ida da arte marcial okinawana para o centro do Japão, ela era chamada de Toudi (唐手), que significa “Mãos da China”, ou então simplesmente de Te (手), que significa “Mão”. Gichin Funakoshi Sensei foi o responsável não só por levar a arte ao conhecimento dos japoneses, como por colocá-la no rol de artes reconhecidas como Budō.

Vale lembrar que estamos falando do início da Era Meiji, momento de modernização do Japão, que necessitava de forte reafirmação de si mesmo como nação, de modo que qualquer arte marcial que carregasse consigo o nome e o estigma de outro país, ainda mais da China, não seria bem-vinda. Assim, o nome original da arte, qual seja Toudi, ou Mãos da China, estava fora de cogitação.

Como Funakoshi Sensei era um grande estudioso do taoísmo, ele acabou fazendo um trocadilho: o kanji Tou (唐) também pode ser lido como Kara, e a fonética Kara é igualmente a leitura do kanji 空, que, dentro das filosofias taoístas e zen-budistas, significa Vazio. Desta maneira, Funakoshi Sensei trocou um dos kanjis e apresentou aos japoneses a sua arte marcial como puramente originária da ilha de Okinawa – uma arte puramente japonesa.

Acontece que, ao fazer isso, Funakoshi Sensei não só resolveu o problema do nacionalismo japonês, mas também religou a arte do Karatê às suas raízes filosóficas, que apontam para o Templo Shaolin do Sul, que por sua vez foi originário do Templo Shaolin do Norte, onde nasceu aquilo que conhecemos como Gongfu (Kung Fu) das 18 Mãos de Lohan. Lohan significa eremita, e é uma das nomenclaturas historicamente usadas para tratar de Bodhidharma (Daruma Taishi em japonês).

Bodhidharma foi o 28º Patriarca zen-budista, responsável por tentar restabelecer a prática da meditação na China, lá chegando em 475 d.C. Após uma conversa nada amigável com o Imperador Wu, Bodhidharma dirigiu-se para o Norte, estabelecendo-se próximo ao Templo Shaolin. Reza a lenda que antes de se entregar à vida monástica, Bodhidharma letrou-se na arte das lutas indianas, e, portanto, foi o grande responsável por implementar técnicas de combate no citado Templo chinês, realizando a fusão entre a luta e a espiritualidade.

Toda essa digressão histórica foi necessária para demonstrar que o conceito de kara (空), ou Vazio, vai muito além de nada se ter nas mãos (空手 – Karatê). Conforme a filosofia budista de Bodhidharma, este vazio é o vazio de uma ego-entidade, a capacidade de se despir do conceito de si mesmo, para, então, experimentar sua Verdadeira Natureza.

Deste modo, como dito no início deste artigo, Karate é defesa pessoal, é esporte, mas também é arte marcial, e este aspecto abrange o autoconhecimento. É possível, através da prática austera e diária, experimentar um estado de existência totalmente diferente daquele que permeia o nosso dia-a-dia. Quando, no meio das chamas de um árduo treinamento, não há mais ninguém dentro daquele quimono ensopado de suor, quem está a socar e chutar? Ao deixarmos de aplicar o golpe para nos tornarmos o próprio golpe, realizamos o Caminho dos Ancestrais, e experimentamos o que todos eles experimentaram.

Mas então, o que é o Karatê? Todo aquele que quer essa resposta terá que encontrá-la por si mesmo. Professores e Mestres mostrarão O Caminho, mas o aluno e o discípulo terão que, por si só, trilhá-Lo. “O que é o Karatê?” – a busca por essa resposta é como a feitura do poema perfeito: trata-se do persistente trabalho de toda uma vida.

César Maximiano Duarte
Representante da IKOK Sonoda Group para o Brasil


2 comentários

Cleyson · 22 de dezembro de 2020 às 04:46

Cada dia mas aprendo karatê e fico cada dia mas sábio e experiente me tornando cada dia melhor…

Watanabe Tessho · 22 de dezembro de 2020 às 12:09

Excelente parabéns Shihan César.

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